
*Por Taize Wessner
Durante muitos anos, a Internet das Coisas (IoT – Internet of Things) foi tratada como uma inovação promissora, mas ainda experimental. Em 2026, essa narrativa já não se sustenta. O IoT amadureceu, ganhou escala e hoje ocupa um lugar claro nas decisões estratégicas de empresas que operam em setores intensivos em ativos, energia, logística e serviços financeiros. Não se trata mais de “adotar tecnologia”, mas de estruturar operações mais eficientes, seguras e sustentáveis a partir de dados em tempo real.
Esse movimento é respaldado por números concretos. Estudos da IoT Analytics indicam que o mundo deve ultrapassar a marca de 30 bilhões de dispositivos IoT conectados até 2026, com crescimento concentrado justamente em aplicações industriais, energia, rastreamento e automação. Quando falamos em cifras, a McKinsey & Company estima que o impacto econômico do IoT pode alcançar US$ 12 trilhões por ano até o final dessa década, com ganhos diretos em produtividade, redução de perdas e novos modelos de negócio.
Ao acompanhar de perto projetos em diferentes setores, fica evidente que o IoT deixou de ser um “projeto de inovação” e passou a ser infraestrutura crítica de operação.

No ambiente industrial, o avanço do IIoT (Industrial Internet of Things) está diretamente ligado à capacidade de transformar dados em decisões rápidas. Sensores instalados em máquinas, veículos e ativos críticos coletam informações contínuas sobre desempenho, consumo e risco. Cada vez mais, esses dados são processados por Edge Computing — ou computação de borda —, que realiza análises localmente, reduzindo latência e dependência da nuvem.Segundo a Gartner, mais de 50% dos dados gerados em ambientes industriais serão processados na borda até 2026, especialmente em operações onde tempo de resposta, segurança e disponibilidade são fatores críticos. Esse movimento muda a lógica operacional: o IoT deixa de apenas “mostrar o que aconteceu” e passa a orientar o que deve ser feito.
Em usinas de açúcar e etanol, bem como em plantas industriais de grande porte, o IoT se consolida como aliado direto da eficiência operacional. Monitoramento de vibração, temperatura e pressão permite manutenção preditiva, reduzindo paradas não planejadas e aumentando a vida útil dos equipamentos. A conectividade, nesses casos, costuma ser garantida por redes privativas ou 5G, que oferecem maior controle e confiabilidade.
Relatórios da GSMA Intelligence mostram que o uso de redes privativas industriais cresce a taxas superiores a 40% ao ano, impulsionado por setores como agroindústria, energia e mineração. Além do ganho produtivo, essas soluções se tornaram essenciais para atender critérios ESG (Ambiental, Social e Governança), permitindo medições contínuas de consumo energético, água e emissões — dados cada vez mais exigidos por investidores e agências reguladoras.
No setor de energia, o IoT é a base das Smart Grids (redes inteligentes). Medidores e sensores conectados viabilizam balanceamento de carga, resposta à demanda e rápida identificação de falhas. A International Energy Agency aponta que a digitalização do setor elétrico pode reduzir perdas técnicas e operacionais em até 25%, além de acelerar a integração de fontes renováveis. Aqui no Brasil, a gente está acompanhando de perto essas mudança. Os medidores residenciais, por exemplo, já estão sendo trocados por novos conectados, que permitem à concessionária olhar o consumo remotamente, bem como ser mais ágil na resposta às quedas de energia, que tem se apresentado como uma questão crítica em capitais como São Paulo.
Poucos setores ilustram tão bem o valor do IoT quanto a mineração. Ambientes extremos, ativos de alto valor e riscos humanos elevados tornam a conectividade um fator de segurança imprescindível. Sensores monitoram gases, estruturas, localização de trabalhadores e equipamentos em tempo real, muitas vezes utilizando conectividade híbrida — combinando redes privadas terrestres e IoT via satélite.
Estudos da Deloitte indicam que iniciativas de IoT e automação podem reduzir acidentes em até 20%, além de trazer maior previsibilidade à operação.
O mesmo ocorre no rastreamento veicular e de ativos, que evoluiu do simples GPS para plataformas completas de telemetria. Tecnologias como eSIM (SIM eletrônico) e Multi-IMSI garantem conectividade contínua, independentemente da operadora ou do país. De acordo com a ABI Research, o mercado global de gestão de frotas deve ultrapassar US$ 80 bilhões até 2026, impulsionado por eficiência logística, redução de custos e exigências ambientais.
Esse é um mercado que eu acompanhei a evolução bem de perto e vi como evoluiu nos últimos anos. Rastreamento hoje vai além da localização GPS. Os veículos possuem diversos sensores que monitoram o movimento do motorista, alertam sobre o desvio da rota, sobre abertura de portas ou qualquer movimento que seja importante para a segurança das pessoas e do veículo.
Um dos movimentos mais interessantes acontece na interseção entre IoT e finanças. Máquinas autônomas, vending machines e pontos de venda não assistidos viabilizam os chamados pagamentos invisíveis e o conceito de embedded finance, quando o pagamento acontece de forma integrada à experiência, sem atrito.
Aqui no Brasil ainda assistimos ao crescimento dos POSs, que são aquelas maquininhas de cartão. Acreditava-se que elas iriam desaparecer com a evolução dos dispositivos móveis, mas o que aconteceu na prática é que elas ganharam outras funções que auxiliam principalmente na gestão do varejo brasileiro. E por essa razão, eu trouxe como destaque como tendência para esse ano.
E a McKinsey & Company comprova! Eles destacam que os pagamentos digitais integrados a dispositivos conectados estão entre os segmentos de maior crescimento do setor financeiro, criando novas fontes de receita e ampliando o alcance dos meios de pagamento tradicionais.
O que une todos esses setores é uma constatação simples: IoT não é mais sobre tecnologia, é sobre estratégia. Empresas que tratam conectividade, dados e inteligência embarcada como infraestrutura essencial ganham eficiência, previsibilidade e vantagem competitiva. As que adiam essa decisão assumem riscos crescentes, operacionais, financeiros e regulatórios.
Em 2026, falar de IoT é falar de produtividade, segurança, sustentabilidade e crescimento. E, cada vez mais, é falar de negócio.
*Taize Wessner é presidente da Virtueyes, operadora de Telecom dedicada a projetos de IoT.
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